sexta-feira, 28 de maio de 2010

“A invenção do crime”

“Para ele, a imagem era de uma pessoa diferente. Alguém que sabia por que estava ali, ainda que não houvesse sentido prático. Olhava para o mar como se lá houvesse deixado todo seu patrimônio, suas razões de viver, seus amores. Mas sem culpas ou remorsos. Era suave e determinada ao mesmo tempo, no olhar. No tatear as cordas do navio que estava ancorado, era ousada. No ouvir o barulho surdo das ondas, um tanto romântica. Só do respirar aquelas vidas por perto, entre pescadores, turistas, guias turísticos, observadores como ele, é que não sabia o que interpretar. O que aquele nariz altivo captava do mundo não tinha como saber...”

Trecho do livro “A invenção do crime” de Leida Reis que alias, recomendo.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Só agora entendi


Da primeira vez que nos vimos, confesso te achei meio desconexo, estranho e convencido demais, nem merecedor de tanto barulho,
Talvez pelo fato de a idade me impedir de entender que aquela sensação de sufoco que sentia no ar é justamente o artifício que você usa para embriagar seus convidados,
Entendi que aquela vontade que tive de chorar, quando menina, não foi porque estava longe de casa e me sentido desprotegida, essa vontade era provocada pelo encontro de mim comigo mesma em Copacabana,
E aquela sensação de querer fugir com o mar - Ah! Essa era a mais desconcertante, será vovó que tenho lido contos demais?- Não, não tinha... Ela transbordou em mim novamente e se não fosse forte o bastante teria cedido, e ido, e me entregado, e me perdido,
As silhuetas das montanhas, essas me lembrava que havia gostado, elas não mudaram de lugar, como aquelas flutuantes da mulher que outrora ali era criança,
Caminhei descalço por sua imensidão, sem vergonha de pedir que me desse tudo o que fosse possível para um dia só, e você me deu tudo. Fiquei com nó na garganta quando tive que me despedir de meu pedaço, aquele que ficou no meio da avenida anos atrás,
Tive que lidar com todos esses sentimentos e ao mesmo tempo admitir como havia errado antes, não poderia entender tudo que você podia me oferecer, meu coração não estava pronto, ainda não tinha lido Fernando Pessoa e Clarisse Lispector, ainda não tinha ouvido Elis Regina e Norah Jones, só conhecia as canções de roda que o mundo insiste em enfiar-nos goela abaixo. Posso então evidenciar aqui o quanto sinto de ter desdenhado de você um dia?
Posso dizer o quanto você me permitiu naquele dia? E o quanto sinto saudades? O quanto não poderei esquecer jamais?
Posso! Estou fazendo isso agora.