terça-feira, 20 de julho de 2010

A mídia é regulada pela sociedade ou ela é quem regula?

Texto produzido no dia 15/06, primeiro jogo do Brasil na copa de 2010.

Nessa tarde o povo brasileiro famoso por sua paixão pelo futebol lotou as ruas, as praças e os pontos de ônibus distribuídos pelos corredores principais de Belo Horizonte, sem falar dos bares e espaços que foram cuidadosamente reservados para que os cidadãos “brasileiros com muito orgulho, com muito amor” pudessem assistir á estréia da seleção brasileira de futebol, na copa da África. O trânsito estava um caos, o horário de rush foi adiantado para 14:00 hs de uma terça-feira de trabalho, quero dizer, eu tentava trabalhar, mas as pessoas pareciam sofrer de uma amnésia situacional, e ninguém prestava muita atenção no que eu tinha a dizer os ônibus lotados não paravam nos pontos para levar os trabalhadores (que nesse momento eram fanáticos trabalhadores) para suas casas ou para onde quer que fossem assistir o jogo e os carros acelerados batiam nos ônibus obrigando os passageiros a descerem da condução que com tanta dificuldade tinham conseguido embarcar. Fiquei uma hora e meia dentro do ônibus, no trânsito retido. Momento esse que pude apreciar as mais diversas personalidades torcedoras e as mais criativas ornamentações especialmente produzidas para transferir a energia positiva para a seleção que entraria em campo, lá no outro continente. Eram camisas, bonés, lenços, sapatos, óculos, buzinas, assovios, vuvuzelas... Imaginei quanta bagunça estaria acontecendo em São Paulo, visto que nossa metrópole perto daquela em (questões físicas, geográficas) é um grão de cidade.

O fato é que a partir de tanta mobilização, pude pensar o quanto não somos assim em sociedade, o quanto não nos mobilizamos por política ou saúde pública, por exemplo. Gostaria que as pessoas amassem e se mobilizassem tanto pelas questões políticas do nosso país como pelo futebol.

Você pode me perguntar agora: mas o que a mídia tem a ver com tudo isso? Respondo: desde último dia 11 de Junho não tenho acesso (isso é na “grande TV aberta”) [1] a outras programações que não sejam jogos de futebol, entrevistas com especialistas em futebol, ex-jogadores de futebol, até a previsão do tempo agora que importa é a da África.

Seria muita pretensão dizer que preferia assistir um bom filme, seria pedir muito poder ter opção?

A mídia brasileira é considerada por muitos especialistas como poderoso canal da massa (televisão, por exemplo) e regulador de vida social. Efetivamente percebe-se que existe grande contribuição por parte dela para essa regulação. O fato que seria interessante pensar é até que ponto o comportamento social do cidadão brasileiro faz parte de sua cultura ou é incentivado e incitado (em parte considerável) pelas grandes mídias televisivas, que possuem influencia para tal.

Em época de copa na TV só se fala de copa porque é isso que o brasileiro quer assistir ou é interesse de alguém que tem poder por trás das mídias de desviar a atenção dos assuntos mais importantes? Enquanto se instala o oba-oba, perdemos o foco do evento muito mais importante que acontecerá esse ano e que sem dúvidas tem muito mais chances de interferir em nossas vidas do que a copa do mundo, alguém ai está lembrando que só escolhemos nossos presidentes uma vez a cada quatro anos? Essa não é a retórica dos mais fanáticos pela copa? Pois temos os mesmos argumentos, com a diferença de que para esse fato, os holofotes não ficam constantemente ligados.

È necessário que se desenvolva nesse país uma consciência crítica dos indivíduos sobre a sociedade, a forma de vida, as formas de governo. Precisa-se desenvolver um gosto por tratar dos assuntos políticos, quero dizer, primeiro que se desenvolva um respeito por política.

Em que as mídias efetivamente estão contribuindo? Afinal no decreto de suas concessões não existe um artigo que reza sobre a utilidade social delas? Será que é de interesse dos grandes proprietários dessas empresas midiáticas que essas faculdades mentais se desenvolvam no povo brasileiro? A mídia está contribuindo para o desenvolvimento social realmente, está regulando nosso comportamento ou mantendo nosso infeliz status quo?[2]

Qual será o canal que transmitirá a necessidade de mudar? Qual deles terá disposição para insistir na idéia de que precisamos discutir nossos problemas?

Só sei que o jogo trouxe-me uma gama de perguntas não respondidas, a campanha da seleção nem foi tão boa assim e minha televisão só anunciava a “extraordinária vitória de 2X1 do Brasil sobre a Coréia, como não concordava com o adjetivo: desliguei a TV.




[1] Cito “grande TV aberta” para me referir às emissoras privadas de canal aberto que detém maior audiência, que são tidas como referência pelo telespectador brasileiro.

[2] Status quo é uma redução da expressão latina in statu quo ante, que significa, literalmente, “no mesmo estado em que se encontrava antes” (http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/05/05/statu-quo/)

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