quinta-feira, 8 de julho de 2010

Luciana no país das maravilhas

A personagem Luciana, interpretada pela atriz Alinne Moraes em “Viver a vida”, é uma jovem rica e que, devido a um acidente, está, hoje, em uma cadeira de rodas. Na novela, Luciana é tratada, em hospitais particulares, pelos melhores profissionais do Rio de Janeiro e do exterior. Em casa, a personagem dispõe de um quarto adaptado para sua situação de cadeirante, um carro também adaptado com motorista, uma sala de fisioterapia, além de receber a assistência de enfermeiras e fisioterapeutas particulares.
Os recursos que garantem a comunidade de Luciana são provenientes de sua situação econômica privilegiada, na ficção, mas isso está longe de ser uma realidade em nosso país. Se analisarmos, apenas, o aspecto financeiro, a personagem parece viver no “Brasil das maravilhas”. O “Brasil da vida real” tem, aproximadamente, um milhão de cadeirantes e quase nenhuma estrutura para acolhê-los, garantir a sua cidadania e torná-los independentes.
No “País das maravilhas”, Luciana vive bem, apesar dos problemas de mobilidade reduzida e, partindo para uma análise pessoal (considerando que a vejo pelos meus olhos de pessoa dita “normal”, que anda sobre duas pernas), imagino que ela seja um símbolo de conquista (mesmo que no terreno fictício) e porta-voz das pessoas com problemas semelhantes aos dela, espalhadas por todo o “Brasil da vida real”.
Os diálogos travados com especialistas e outros deficientes, neste núcleo da novela, confirmam a capacidade de um cadeirante ter vida sentimental e sexual ativa (um tabu), além de incentivar essas pessoas a se tornarem cidadãos defensores de seus direitos. Os depoimentos que encerram o capítulo do dia são exemplos reais de superações.
No entanto, a simpatia que o público sente por Luciana, comove menos se nos dispusermos a enxergá-la pela perspectiva de uma pessoa cadeirante. Por exemplo: Como as pessoas que se deslocam vários quilômetros para fazer fisioterapia dependendo do transporte coletivo e esperam horas na fila de uma clínica do Sistema Único de Saúde (SUS) enxergam Luciana? Será que um pai ou mãe de família que foi aposentado por invalidez e ganha um salário mínimo, se identifica com ela? O que sentem os cadeirantes que saíram pelas ruas de Brasília entregando notificações aos estabelecimentos que não se preocupam em garantir o acesso de cadeirantes e demais portadores de comprometimento físico quando vêem a Luciana? O que diriam Mariana e Willian, alunos que processaram as sua escolas para conseguir ter acesso à educação? Como será que o cadeirante que processou o condomínio onde morava por proibi-lo de permanecer no hall do prédio, pois “dificultava” o acesso das outras pessoas, interpreta a Luciana?
Não posso responder essas perguntas. Entendo que os desafios são infindáveis para essas pessoas que precisam lutar para superá-los. Todas as suas conquistas, extensivas ao grupo ou mesmo individuais são marcadas do esforço para “viver a vida” neste nosso “democrático” país.
É fato que a existência da Luciana, na novela, promove uma discussão na sociedade em torno do assunto. Mas não se pode enxergar na mídia televisiva apenas aquilo que nossos olhos querem ver. É necessário um esforço para que deixarmos o “Brasil das maravilhas” ao término de cada capítulo da novela e encararmos um país cheio de pessoas reais, com problemas reais. Pessoas que precisam de uma colaboração efetiva ou apenas de uma palavra de apoio e incentivo. Que tal fazer uma visita àquela senhora cadeirante que mora ao final da rua?


Crítica - Trabalho acadêmico do 3º período, escolhido para ser publicado no Jornal contramão 11ª edição, pg 02.
Acesse a edição on-line no link: Jornal Contramão