terça-feira, 27 de março de 2012





"para um navegante que não sabe qual rumo seguir, todos os ventos são contrários..."

quinta-feira, 22 de março de 2012

APANHADOR



Preciso de uma história para contar. Que não seja necessariamente uma história minha, mas que só por hoje, não fale sobre adolescentes mortos, vítimas da arquitetura do tráfico de drogas, ou sobre homens velhos e pedófilos aliciando crianças pobres e famintas.

Preciso contar uma história que alimente os sentimentos mais nobres de um ser humano, que consiga atingir um recinto superior na alma do reles mortal, que acompanha o site de notícias locais, atualizando-o de cinco em cinco minutos.

Uma história que não relate nada sobre desafetos amorosos ou pesquisas científicas, que constatem o quanto estamos perdidos nesse planeta, batendo nossas cabeças nas paredes, tateando espaços possíveis para encaixar nossos egos, que são maiores do que supomos e infinitamente mais carentes de humildade do que podemos admitir.

Não. Não precisa ser sobre como a vida do vizinho vai mal, ou como definha a política monetária nacional. Nada sobre empreitadas frustradas de paz, supostamente travadas em sociedades que querem evitar mais mortes, e guerras...civis, particulares, pessoais.

E não precisa atender nenhum critério de noticiabilidade, ter objetivo lógico ou imparcial. Nem fazer tanto sentido assim para quem a escuta, desde que o faça completamente para quem conta.

Quero uma história de lua. Pode ser uma situação cômica que aconteceu em uma noite de lua cheia e deixou uma cicatriz, no lado superior esquerdo da cabeça de alguém.

Ou uma de sol. Talvez sobre a relação de gratidão entre um cão e seu dono, que levanta às 8 da manhã de um domingo de ressaca total, só para levar o bichinho para passear e aproveitar assim as melhores horas do dia.

Podemos tentar com uma história de tempo. Como quando acontece algo, que faz alguém chorar de tristeza, mas que depois de um tempo, com dez quilos a mais na balança, calos nos pés, entradas de calvície e linhas de expressão na testa, a faça chorar de rir.

Uma história que valha a pena contar, declamar, ser lida por minha sobrinha de seis anos de idade no jardim de infância. Que seja repleta de partícula (s) ridades de alguém, que faça com que, ao menos por alguns minutos, eu consiga recuperar o interesse pelo que as pessoas têm a dizer.

Quem tem uma assim? Quem tiver poderia, por gentileza, deixar que eu conte?