segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Segunda Carta

Segunda carta
Querido,

Já sinto saudades e olha que você mal se despediu da nossa terra azul e verde. Custei a dormir na última noite, em parte por causa dos ruídos da casa, aqueles inexplicáveis que teimam me assustar madrugada afora, e em parte porque me preocupei, sem notícias suas. Agora e mais calma em saber que correu tudo bem, avalio que meu mais ardente desejo era poder ter visto seu rosto, ao pisar pela primeira vez em terras diferentes. O único sentimento que poderia facilmente substituir o vazio que restou da sua voz, me dando bom dia pelas manhãs, seria a lembrança de ver seus olhos sorrindo, fantasiando as aventuras do porvir nesse lugar desconhecido. 

Mas falemos de você menino-homem-rapaz que enche meus dias de sol. Que bom que conseguiu reaver nossa bagagem. Nossa porque foi exatamente no fundo falso da mala cinza que escondi nossas fotos, os chicletes menta e algumas cartas que escrevi. Queria que levasse junto de você nossos caprichos, nossas manias e minhas suplicas para não me esqueceres em meio ao Atlântico. Pensando bem não foi um bom sinal nossa mala, justo essa, ter ido parar na Nova Zelândia, um país insular, isolado do resto do mundo, por sua localização geográfica... Ouvi dizer que de tão sozinha no planeta, a “Aotearoa” – como os nativos do local a chamam e quer dizer ‘A Terra da Grande Nuvem Branca’, acabou tendo que crescer sozinha e desenvolver uma fauna só sua, dominada em sua maioria por pássaros, que acabaram se mudando de lá, depois que os seres humanos chegaram. 
Será que recebemos um sinal meu bem? Nossas lembranças ficarão perdidas em algum lugar inacessível? Ou elas ganharão vida própria e se eternizarão de um jeito todo próprio, típico de você, diferente, especial e cativante? Ainda não sei. 

Gostei do papel que usou para escrever sua última carta, que de tão delicado me fez lembrar o perfume de suas mãos, que um dia também adornaram as curvas do meu corpo. Dona Lurdinha disse que nem quando tinha o marido vivo viu tanto carinho e dedicação em um falar, como viu no seu. Disse a ela que sua doçura não pode ser mensurada, tão pouco comparada com a de ninguém que vive ou viveu, porque você não se encaixa a nenhum dos padrões que as pessoas medíocres insistem em instituir. Ela riu, apenas. 

Ah, ia me esquecendo, pelo retrato que me mandou, do céu recortado pela sua janela, é parecido com o pedaço do nosso céu, que também consigo ver aqui. Meu coração se aqueceu só de saber que ao olhá-la estaremos, enfim, juntos pela mesma visão de paisagem. E ai eu vejo você.  


De sua, Helena Kastanho

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

"Tudo o que conseguia pensar era: 'será que ele viu a lua hoje?' Será que em meio a tanto trabalho, obrigações e preocupações ele pôde parar para observa - lá?

Seria uma pena se não a visse porque ela está linda. Pode ser que não tenha visto como ela brilha e irradia uma luz incomum, até mesmo para os mais observadores...

Fosse eu a dona do seu coração lhe atentaria para o fato:
- Amor! Para. Respira. Acalma. Olha pra cima. Observa (assim mesmo, no imperativo, que era pra não correr o risco de não ser atendida).
Ela está cheia, linda, ousada, carente, ímpar, inspiradora, sozinha, romântica, nua... Tem um brilho diferente e próprio. 

E deixaria a janela do nosso quarto aberta hoje e fantasiaria que sua luz banharia nossa cama, nossa pele... Mesmo medrosa como sou, temendo que alguma criaturinha que habita o quintal visse a invadir o quarto. Me atreveria. Esta noite sim. Eu sei que valeria a pena."


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Carta de Ano Novo: Porque ou para quê querer mais?



Para quê? - Não sei. Não fui eu quem projetou a mente humana com todas as suas limitações, complexidade e em todo seu paradoxo... só posso dizer do que sinto e vejo (ou penso que vejo, já que meus sentidos funcionam em conjunto com essa mesma mente estranha, de que lhe falo). No entanto, penso que querer é a essência de algo que rege a vida. 
Querer nos torna humanos, sonhadores, errôneos e até hipócritas. Querer nos faz levantar todas as manhãs em busca de uma fórmula que nos faça conquistar o almejado e aí, quando conseguimos conquistar o que queremos, no outro dia já é preciso querer mais...
Não é complexo, na verdade, é bem simples: se você para de querer, para de viver, daí vira alvo fácil para toda sorte de enfermidades, do corpo, da alma, da mente e do coração.
Em tempos de superficialidades e rotinas fúteis eu ousei querer mais. Quis mais que um sorriso amarelo em sinal de amor. Quis mais que uma rotina de lamentos em prol de tudo o que eu escolhi para mim mesma. E, embora muitas das escolhas que fiz fossem acertadas, outras foram extremamente equivocadas (e dói descobrir o caminho espinhoso pelo qual seus próprios pés o levaram).
Em tempos de passividade eu ousei querer mudar meu ‘destino’ e apostar em um futuro impensado – pela minha mãe, por exemplo. Quis sonhar, quis querer, quis conquistar...
Por que estou lhe escrevendo essas coisas?
Porque este é o primeiro domingo do ano e estou pensando no que mais desejo a você. Cheguei à conclusão que desejo que você queria! E queria muito (muitas coisas boas!).
Queira ser, queira viver, aprender, dividir... queira ser forte, lutar... queira ser você mesmo (em toda sua essência, formosura, doçura, graça, grandeza, beleza, alegria e sensibilidade!). Queira rir da vida e, na cara dela, se um dia achar que lhe trapaceou...
E queira, acima de tudo, conquistar a ‘utopia’ pela qual tanto sonhamos e lutamos: seja feliz em 2014!