sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sem mais


Não podia acreditar que ele me traia daquela forma. Não uma traição carnal ou física, daquelas em que cedemos aos nossos desejos menos prodigiosos. 
Não. Ele traia minha confiança, minha intuição.

Olhou fixamente nos meus olhos e deliberadamente, sem receio de deixar que a sujidão de uma alma velha e rota transparecesse, sem maiores problemas ou dificuldades, disse:
- Meu bem?
- anh?
- Sabe aquela erva cidreira que plantou lá no jardim?
- Sei.
- Ela está deixando nosso jardim tão feio! É feito mato crescendo em meio às flores...

Observei.

- Poderíamos plantar orquídeas lá, ou margaridas. Ah! Margaridas são tão vistosas...

Como se ele não soubesse, ou preferisse desconhecer, nossa própria feíura. Estamos a enfear esse mundo, essa casa, nossa cidade, a própria vida...

Respirei.

- Meu bem, você sabe que as ervas são boas pra mim. 
Nos dias de inverno, principalmente, quando nada mais pode me aquecer o corpo e me falta ar nos pulmões...

Pensei em recuar e mandarem limpar o jardim. Talvez plantar uma muda só, num pequeno vaso, lá no fundo do quintal.

-Pense bem. Podemos plantar as flores mais lindas que você imaginar nesse jardim e todos o acharão o jardim mais lindo que já existiu.

Não respondi.

Fui ao jardim. Colhi algumas folhas da minha erva chá favorita e fiz. Ainda não é inverno, mas ele aqueceu minhas entranhas de uma maneira que ninguém mais poderia fazer.

- Meu bem! Plante suas margaridas no jardim externo. Aquele que fica no passeio da casa. Lá todo o povo poderá apreciar a beleza das suas flores de verão.

E deixe, que da feíura de cá de dentro cuido eu.




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